lição atual
Parar de dispersar energia no infertil.
Parar de dispersar energia no infertil.
Pontada fina no peito. Como um vampiro que abrisse os olhos raiados de sangue no segundo exato em que alguém desfere o golpe enterrando no fundo do coração a ponta mais aguda da estaca de carvalho bento. Ou seria bétula? Carvalho ou bétula, embora o sangue não jorrasse do buraco no peito, ele morria num estertor de porco para depois envelhecer séculos e séculos, todos os séculos de treva que atravessara até o cabelo embranquecer e cair fio por fio, a pele vincar-se em teia emaranhada de rugas, os músculos apodrecerem descolados dos ossos finalmente luzidios e nus e o vento então soprasse o pó que restaria de sua carne por todas as possibilidades dos quatro pontos cardeais, retroativa agonia.
Dentro do corpo contudo vivo, o sangue latejava nas veias das têmporas do homem, suor gelado viscoso escorrendo da testa pelo pescoço e braços até as palmas das mãos apertadas no volante, pelas costas da camisa fresca de verão grudadas no plástico do assento do automóvel. E porque escolhia ainda mais fundo a dor daquela madeira santa mortal cravada no peito, levantou os olhos e tomou a ver.
Na porta do hotel, a mulher beijava suave a boca do outro homem, sem se importar com as pessoas nas calçadas atravancadas de entardecer. Todos se desviavam baixando discretos o olhar, escândalo nenhum. Pois o terrível, o mais terrível daquilo, repetiu o homem sozinho dentro do carro parado, e ainda uma terceira vez enquanto procurava a palavra exata, mesmo em desespero ele era meticuloso, e encontrou então e formulou em frangalhos dentro do automóvel, impotentes os dois no engarrafamento de sexta- feira — o mais terrível daquela mulher e daquele outro homem beij ando-se à frente do hotel dentro daquela espécie de campânula de vidro ao redor de sua intimidade o mais terrível, gemeu, era que pareciam perfeitamente lícitos. Um homem e uma mulher desses que há tempos escolheram ficar juntos e sentem certa dificuldade ao separar-se, mesmo por pouco tempo, quase noite à frente de um hotel cinco estrelas no centro da cidade. Talvez viajantes, pensariam as pessoas passando, pensou, e certamente amantes.
Mas ela, a imoral, ela deveria usar vestido vermelho justo, continuou pensando, ele gostava de ler histórias policiais baratas, e negros raybans apesar do crepúsculo, saltos altíssimos, lenço na cabeça amarrado sob o queixo. Pecado, ação escondida, vileza. Tra-i-çã-o, soletrou enquanto os carros atrás buzinavam para que andasse, porra, e acelerou lento para olhar mais atento o outro homem. Oh, deus gemeu sem maiúscula nem exclamação, o outro homem sequer parecia um cafajeste em seu sóbrio biazer azul- marinho, certa barriga, gravata cinza, vagamente calvo. Nem suíças ciganas, bigode latino, brinco na orelha, camisa aberta ao peito, corrente ou dente de ouro rebrilhando ao último sol da sexta-feira. Respeitabilíssimos, os dois canalhas, ela parada na esquina, via pelo espelho retrovisor, acenando mais uma vez para o outro homem como se procurasse memorizar-lhe os traços antes da separação. Antes da separação, repetiu incrédulo.
Os dois mais ele, ele como se fosse ele o ilícito, espiando sem ser visto pelo espelho retrovisor à sorrelfa, à socapa, gostava dessas palavras que dormem esquecidas pelos dicionários, nos vértices das palavras-cruzadas, e o outro homem sereno agora girando no vidro da porta-giratória do hotel, e a mulher com seu tailleur pérola e pérolas no pescoço, o sol oblíquo do entardecer atravessando os cabelos caídos em duas pontas lisas escovadas sobre os maxilares. Tão duros, ele notou, o dourado dos raios de sol, o dourado dos fios de cabelo, o dourado da superfície do rio no fim da transversal lá embaixo. A bolsa quadrada de verniz que ela agora erguia decidida no ar para chamar um táxi e ir para casa. A casa dele, do homem ilícito ao volante do carro parado no trânsito infernal, e dela, a lícita mulher das pérolas: cinco anos em maio próximo, já planejados jantar japonês, depois dançar cheek to cheek. Champanhe, caviar, veneno, buzinou frenético sem fôlego nem ordem: cinco meu deus puta anos escrota.
Bodas de papel? Tentou lembrar enquanto o sinal abria, ou seriam de ametista? Rubi talvez? Esmeralda, jaspe quem sabe? cristal ou nácar? Continuou pensando ao dobrar a esquina, oh, deus topázio? Como era mesmo aquela lista dos almanaques que os noivos folheavam juntos no sofá das salas de antigamente? Ágata? Lápis-lazúli? Água-marinha?
Cascalho repetiu sem ponto de interrogação, acelerando mais: puro cascalho sujo. E como não tinha um revólver no porta-luvas, ligou o toca-fitas com um click seco assim pá-pum! Pronto, acabou.
(como uma oração)
Que comece agora. E que seja permanente essa vontade de ir além daquilo que me espera. E que eu espero também. Uma vontade de ser. Àquela, que nasceu comigo e que me arrasta até a borda pra ver as flores que deixei de rastro pelo caminho. Que me dê cadência das atitudes na hora de agir. Que eu saiba puxar lá do fundo do baú, o jeito de sorrir pros nãos da vida. Que as perdas sejam medidas em milímetros e que todo ganho não possa ser medido por fita métrica nem contado em reais. Que minha bolsa esteja cheia de papéis coloridos e desenhados à giz de cera pelo anjo que mora comigo. Que as relações criadas sejam honestamente mantidas e seladas com abraços longos. Que eu possa também abrir espaço pra cultivar a todo instante as sementes do bem e da felicidade de quem não importa quem seja ou do mal que tenha feito para mim. Que a vida me ensine a amar cada vez mais, de um jeito mais leve. Que o respeito comigo mesma seja sempre obedecido com a paz de quem está se encontrando e se conhecendo com um coração maior. Um encontro com a vontade de paz e o desejo de viver.
(Amém!)
Diante de uma conversa de perder o rumo das coisas direitas, sem folego pergunto:
- Por que não faz isso com a sua namorada quase esposa?
Ele:
- …
A resposta indefinida me provoca. Não resisto:
- Por que está com ela e vai se casar?
Ele:
- Gosto dela!
Ressaca leve e dor de cabeça interminável. Morte da minha coelha. Chuva que não passa… e outras coisas mais… Até as horas de dança inicialmente divertida terminou com ar de programa de índio.
Em meio a risadas tímidas, sem promessas e sem estratégias, encaro mais um começo de ano.
Vambora!
“É que o mundo de fora também tem o seu ‘dentro’, daí a pergunta, daí os equívocos. O mundo de fora também é íntimo. Quem o trata com cerimônia e não o mistura a si mesmo não o vive e é quem realmente o considera ‘estranho’ e ‘de fora’. A palavra ‘dicotomia’ é uma das mais secas do dicionário.”
Bonito texto, como todos os de Clarice! a qual obra pertence?
Abraço.
Solange
mfc 12:28 pm em janeiro 19, 2010 Link Permanente
Obrigado… um abraço!
Há imagens que nos sossegam!